terça-feira, 26 de agosto de 2008

Se tens muito amor para dar

"Se tens muito amor para dar, protege-te a ti e aos outros.
Usa preservativo."

Santa ignorância

“Por cima da minha habitação mora um casal que tem sida. Acontece que os tubos na casa dele rebentaram e provocaram uma inundação da minha casa. Estou muito preocupada que as águas dos banhos e da sanita ,que caíram na minha casa, possam ter a sida, tanto mais que para limpar a água do chão eu andei descalça e tenho uns pequenos cortes nos pés que por vezes sangram. O meu namorado também andou descalço e no dia anterior esteve a cortar as unhas dos pés e a unha grande sangrou. Já não consigo dormir só a pensar nisto. Alguém pode ajudar-me? “

Diferenças entre VIH e SIDA

Segundo as investigações feitas nesta área, o VIH pode ter evoluído a partir do Vírus de Imunodeficiência dos Símios encontrado nos chimpanzés da África ocidental, e ter passado aos humanos dessa região e daí para o resto do mundo. Esta é a teoria actualmente aceite para a origem do VIH.
Existem dois tipos de vírus da imunodeficiência humana, o VIH-1 e o VIH-2, e tanto um como outro só se reproduzem nos humanos. O VIH-1 é o vírus de imunodeficiência humana mais predominante, enquanto o VIH-2 se transmite com menos facilidade e o período entre a infecção e a doença é mais prolongado.
O vírus tem que entrar no sistema sanguíneo para poder multiplicar-se. Ele infecta e multiplica-se dentro dos linfócitos T4, também conhecidos como células CD4, que fazem parte do sistema imunológico. Ao penetrar na célula, o VIH transforma o seu código genético permitindo replicar-se e destruir as células de defesa CD4.
As células CD4 são um elemento fundamental do sistema imunológico, porque são estas que informam outras células sobre a necessidade de combater vírus. O VIH destrói as células CD4 e quando a sua contagem baixa, a resposta do organismo torna-se deficiente. O vírus cria, diariamente, dez milhões de novos vírus, destruindo outro tanto de células CD4.
Todos os dias o organismo produz quase a mesma quantidade de células CD4 para repor a diferença, mas, a partir de certa altura, não consegue aguentar este ritmo.
Desde o momento em que se adquire a infecção até que surjam sintomas de doença decorre um período de tempo, designado como fase assintomática da infecção pelo VIH, (que pode durar em média 8 a 10 anos) em que a pessoa infectada não tem qualquer sintoma e se sente bem. Nesta fase a infecção pode ser detectada apenas se se efectuarem as análises específicas para o VIH. Esta é a fase da doença em que se diz que o indivíduo é seropositivo. Seropositivo é alguém que tem um resultado positivo numa analise de serologia.
Na evolução da infecção pelo VIH verifica-se uma destruição progressiva do sistema de defesa do organismo humano (o sistema imunológico) com estabelecimento de um estado de imunodepressão que permite o aparecimento de infecções oportunistas e determinados tipos de tumores. Quando uma pessoa infectada pelo VIH tem uma destas infecções oportunistas ou tumores passa a dizer-se que já tem SIDA.
Ter um teste positivo para o VIH significa que se tem a infecção por este vírus. Uma pessoa com o teste positivo não significa que tem SIDA. Quando uma pessoa com o teste positivo já teve ou tem determinadas manifestações oportunistas – infecções e/ou tumores –já teve ou tem determinadas manifestações oportunistas – infecções e/ou tumores – então, já tem SIDA.
SIDA significa Síndrome da Imunodeficiência Humana Adquirida. É um conjunto de sinais e sintomas bem definidos que surgem em indivíduos com a infecção pelo VIH.
Sem tratamento específico para o VIH (com os medicamentos anti-retrovíricos) todos os infectados com o vírus virão a ter SIDA mais cedo ou mais tarde. Desde o momento em que a pessoa adquire a infecção até entrar no estadio de SIDA decorre um período de tempo que é, em média, de 8 a 10 anos. Com o tratamento actualmente disponível, é possível modificar a história natural desta infecção, aumentando a duração do período assintomático da doença e prevenindo o aparecimento das infecções e tumores que definem a fase de SIDA. Para que isto seja possível, é fundamental que todo o indivíduo seropositivo tenha um acompanhamento médico periódico adequado. É importantissimo que o diagnostico positivo seja detectado o mais cedo possivel.
Após o aparecimento de uma infecção oportunista, ou seja, após se entrar na fase de SIDA, o tempo médio de sobrevida é de cerca de um ano e meio, na ausência de tratamento anti-retrovírico. No entanto, com os medicamentos actualmente disponíveis para o tratamento desta infecção a sobrevida dos doentes pode ser muito mais longa desde que se cumpra rigorosamente o tratamento e as restantes indicações médicas. Actualmente existem algumas pessoas que vivem com esta infecção há mais de 20 anos.

Sexo dos Anjos

A Campanha de comunicação da Coordenação Nacional para a Infecção VIH/Sida "Sexo dos Anjos" que visa promover a detecção precoce da infecção foi já alvo de uma opinião na imprensa caracterizando positivamente a mensagem de "extremamente agressiva e que nos coloca a todos em causa, em que o anjo nos surge como uma excelente caricatura para nos dizer que ninguém é inocente".

Propagação do VIH/Sida poderá ser evitada/Casais Serodiscordantes

Casais serodiscordantes, quando um possui o vírus e o outro não.


Estudos recentes confirmam que o tratamento do VIH também previne novas infecções. Para os cientistas, desde que o paciente esteja medicado, a transmissão por via sexual é quase impossível. Há poucas semanas, na XVII Conferência Internacional da sida, voltou a ser reavivada a possibilidade de diminuir drasticamente o número de infectados, através de um método que estava mesmo à frente dos nossos olhos. Os anti-retrovirais, medicamentos usados no tratamento do VIH/Sida, podem contribuir para uma redução drástica da transmissão do VIH por via sexual. Esta teoria, sustentada por Myron Cohen, professor na universidade norte-americana da Carolina de Norte, debruça-se sobre o facto de praticamente não existirem vírus no sangue e nos fluidos genitais de infectados com VIH, desde que estejam devidamente medicados. Diminuem, assim, as possibilidades de transmissão do vírus durante as relações sexuais.
Os resultados de Cohen baseiam-se num estudo que envolve 1750 casais serodiscordantes, ou seja, casais em que um parceiro está infectado e o outro não, de forma a poder comprovar se a adequada administração de anti-retrovirais diminui as probabilidades de transmissão. Há ainda outros dados e opiniões a suportar a teoria de Cohen. "Ao tratar as pessoas, conseguimos com que não haja vírus circulantes no sangue e na maioria dos casos isso tem um acompanhamento da redução dos vírus nos fluidos genitais.
Um doente tratado é um doente em que a probabilidade de transmitir a infecção para outras pessoas é de facto muito baixa.
Voltando à conferência do México, Júlio Montaner, do Centro de Excelência do VIH na Colômbia Britânica, no Canadá, demonstrou que o aumento da cobertura de tratamento com anti-retrovirais dos actuais 50% para os 75% levaria a uma queda de novas infecções da ordem dos 30%. "Já sabíamos que a expansão do tratamento podia ajudar a reduzir o número de novos infectados, mas ficámos surpreendidos com o número real de infecções que podem ser evitadas", declarou Montaner.
Assim sendo, este seria um óptimo argumento para alargar o tratamento a muitos milhares de pessoas, já que vários países ainda se mostravam relutantes em financiar estes medicamentos, que atingem preços exorbitantes.

domingo, 24 de agosto de 2008

Amanhã outro dia

Não pode ser? É impossível! Devo estar a sonhar. Um camião sem tamanho atropelou a minha existência. O desastre aconteceu. Deus! Perdi o chão, os sonhos. Que faço? Sinto-me completamente perdido? É complicado receber uma notícia destas, com muitos sonhos pela frente, muito a fazer. Sai sem alma do hospital, caminhando pelas ruas com o exame no bolso sem saber o que pensar, falar, ver ou até ser. Estou em pânico. Vou morrer. Vou suicidar-me. Qual a forma mais indolor para por fim a vida? As lágrimas começam a correr. Onde está Deus? Porque eu? O futuro já não será o que poderia ser? Mordo-me vezes sem conta. Choro até não ter mais lágrimas. Eu não tive uma vida para estar a viver isto. Eu tive apenas dois parceiros nos ultimos anos. Foi tão burro pensei sem preconceitos e juízos de valor do tipo "com o meu namorado não é preciso porque tenho a certeza que não há qualquer risco" ou "este não tem ar de ter qualquer problema"! Andei no arame sem rede... Mais do que infectado sinto-me revoltado. A vida foi tão injusta comigo. Quem anda ha chuva molha-se se eu tivesse estado com inumeros parceiros gozado bem a vida curtido azar quem brinca com o fogo queima-se. Foda-se mas não foi o caso. Eu não vivi! E ele! Como está ele? Será que está bem? Meu Deus não pode ser! Ha quanto tempo estou positivo?
Vou morrer. Não sei quanto tempo ainda me resta. Dias? Meses? Anos?
Pensei vezes sem conta na pessoa mais importante que conheci em toda a minha vida. Precisava tanto de ti agora, agora e mais do que nunca. Foste sempre tudo para mim.
Foste a pessoa mais importante da minha vida agora que tenho os dias contados tenho de me despedir de ti de qualquer forma.
Comecei a ver uma ténue luz lá no fundo do tunel, o caminho é difícil apresenta percursos nunca antes percorridos. Tenho de agir. Olhei bem para dentro de mim. Aceito o desafio de viver com esta doença? Que estou a fazer por isso? Que estou disposto a mudar? A quem pedir ajuda?Dias depois levanto-me cedo, dirijo-me ao hospital. Estou nervoso. Preciso recomeçar a viver. A dúvida, a angústia e o desespero dos últimos tempos, fizeram-me cair numa depressão profunda. Já não é possível continuar a viver assim. Preciso ser esclarecido, confrontado, sofrer tudo de uma vez só e respirar fundo. Hoje, preciso de todo o tempo que consumi desde que nasci.
Aguardo pela consulta, pacientemente. De repente, a médica vem ter comigo e pede-me para que a acompanhe. Entro no gabinete, sento-me. Sinto um nó na garganta, algumas lágrimas teimosas, respiro fundo, aliviado. Em poucos segundos dissipam-se as dúvidas, os tempos infindáveis de angústia, a batalha do desespero.
É tempo de arregaçar as mangas e fazer o que tem de ser feito. Amanhã terei a primeira consulta da especialidade, repetirei análises que confirmem o que hoje me foi transmitido, e outras especificas para saber o ponto em que se encontra o efeito devastador do virus. Pode ser que tudo esteja ainda sob controlo do meu próprio organismo. Pode ser também que nem necessite de medicação para já.
Regresso a casa com a certeza de que voltarei amanhã, assim como voltarei muitos e muitos dias durante toda a vida que me restar daqui para a frente. O hospital, a partir de hoje, fará parte da rotina da minha vida, será um local onde me habituarei a ir vezes sem conta, para que possa tratar de mim.
Voltei no dia seguinte e sinto-me reconfortado. A médica que me seguirá é de facto espectacular, além de uma super entendida na àrea do VIH/SIDA. Tive sorte.
Infelizmente o virus fez estragos consideráveis. Tenho de iniciar imediatamente a medicação, por forma a preservar o que resta do meu sistema imunitário. Tenho apenas 258 células de defesa, quando normalmente, uma pessoa não infectada, poderá ter até mil e tal destas preciosas células. 11 mil carga viral. Iniciar a medicação, sem medo dos efeitos secundários é o que irei fazer.
O tempo foi passando. Sinto-me bem. Em apenas cerca de 2 meses consegui o que pode levar anos. Estou indetectável. A medicação reduziu o vírus a quase nada, isto é, ao máximo que é possível reduzi-lo, apesar de não o conseguir exterminar. As células de defesa subiram desde então. Tenho 402 e continuarão a subir ao ritmo do meu organismo. Tive também tempo para arrumar os fantasmas da infecção, pelo menos os mais aterradores. Hoje vivo com maior paz interior e de certa forma mais feliz. Vivo a vida enfocando-me somente no que vale a pena. Passei a tomar três comprimidos por dia, vou fazer próximas análises dentro de 3 meses, seguidas de uma consulta com a minha médica. Interiormente cresci imenso. Quando algo nos transporta ao limite da vida, regressamos maiores e repletos de vontade de viver intensamente.
Viver a infecção pelo HIV representa o maior desafio com que me deparei em toda a minha vida. Não é, nem nunca será certamente, como viver com outra patologia qualquer, por mais grave e debilitante que a mesma seja ou possa vir a ser. Nas patologias em geral, e lembro-me do cancro, por exemplo, as pessoas contam com o apoio da sociedade, dos familiares, dos amigos, dos colegas de trabalho e até da hierarquia profissional. Sujeitam-se a serem classificadas como coitadinhas, como aquelas a quem a sorte não lhes sorriu, a quem a desgraça lhe coube, mas esse facto é pouco relevante pois o amparo que sentem, é o motor de arranque para lutar contra a doença. Todos os dias têm quem lhes pergunte: Então, está melhor? Como é que se sente hoje? Deixe lá, isso há-de passar. Viver a infecção pelo HIV é viver ocultando a existência da infecção, é fazer de conta todos os dias e em todos os momentos de que não estamos infectados, de que essa patologia não existe em nós, de que isso é apenas um problema de alguns, nunca um problema nosso. E aprendemos a repugnar a infecção como se não a tivessemos, para podermos caminhar lado a lado com a sociedade hipócrita que nos rodeia. Aos poucos, conformamos-nos que a infecção é caraterizada apenas por uma relação bilateral entre nós e o virus matreiro e hediondo, não há amparos, não há condescendência, não há parceria, não há afecto de terceiros. Se houvesse alguma coisa, seria apenas a descriminação, o estigma, o preconceito, o apontar do dedo, o repúdio, a censura, o afastamento e a fuga, o que já não seria pouco. E talvez sejamos muito poucos, aqueles que podemos contar com o amparo da familia e com o de alguns amigos. Neste caso, seremos uns afortunados. Eu, tive a sorte de contar com escassos, mas bons amigos. Aqueles a quem confiamos o nosso "segredo" e que sabem da nossa condição, aceitam porque gostam de nós. A ignorância fomenta o medo. O silêncio promove a Morte no mundo exterior, no exercicio da minha profissão, tenho de agir como se não estivesse infectado. E faltam-me os abraços de todos os que me conhecem e que lidam comigo diariamente. A Sida coloca-nos barreiras em todos os aspectos da nossa vida, reduz-nos os objectivos, retira-nos o gosto pela vida, e obriga-nos a reaprender a viver de novo com todas as condicionantes que a mesma nos impôe. E é uma tarefa árdua para executar em silêncio. E se a Sida promove o silêncio, o silêncio deverá promover a saída. E a saída do silêncio passa por vivermos uma vida a um nível mais interior, mais sublime, no fundo mais racional, o que faz efectivamente a diferença nesta passagem pelo planeta Terra. Cumpre-nos construir a partir de agora uma vida mais introspectiva, com mais valor, e crescer por dentro em todos os sentidos e elevar e enriquecer a alma, reduzindo o mundo exterior aquilo que no fundo ele representa, um quotidiano superficial, repleto de senso comum e a vida finalmente fará mais sentido. Nesta sociedade plana, seremos aquilo que nunca fomos, seremos singulares e agradeçamos esta virtude e esta conquista à Sida, por muito estranho que nos possa parecer. Contemos connosco e somente com aqueles, por muito poucos que sejam, que possamos contar.Eu estou aqui, para quem quiser contar comigo, para viver a vida sem silêncio e com saída. Amanhã sera sempre outro dia.

sábado, 23 de agosto de 2008