Domingo, 24 de Agosto de 2008

Amanhã outro dia

Não pode ser? É impossível! Devo estar a sonhar. Um camião sem tamanho atropelou a minha existência. O desastre aconteceu. Deus! Perdi o chão, os sonhos. Que faço? Sinto-me completamente perdido? É complicado receber uma notícia destas, com muitos sonhos pela frente, muito a fazer. Sai sem alma do hospital, caminhando pelas ruas com o exame no bolso sem saber o que pensar, falar, ver ou até ser. Estou em pânico. Vou morrer. Vou suicidar-me. Qual a forma mais indolor para por fim a vida? As lágrimas começam a correr. Onde está Deus? Porque eu? O futuro já não será o que poderia ser? Mordo-me vezes sem conta. Choro até não ter mais lágrimas. Eu não tive uma vida para estar a viver isto. Eu tive apenas dois parceiros nos ultimos anos. Foi tão burro pensei sem preconceitos e juízos de valor do tipo "com o meu namorado não é preciso porque tenho a certeza que não há qualquer risco" ou "este não tem ar de ter qualquer problema"! Andei no arame sem rede... Mais do que infectado sinto-me revoltado. A vida foi tão injusta comigo. Quem anda ha chuva molha-se se eu tivesse estado com inumeros parceiros gozado bem a vida curtido azar quem brinca com o fogo queima-se. Foda-se mas não foi o caso. Eu não vivi! E ele! Como está ele? Será que está bem? Meu Deus não pode ser! Ha quanto tempo estou positivo?
Vou morrer. Não sei quanto tempo ainda me resta. Dias? Meses? Anos?
Pensei vezes sem conta na pessoa mais importante que conheci em toda a minha vida. Precisava tanto de ti agora, agora e mais do que nunca. Foste sempre tudo para mim.
Foste a pessoa mais importante da minha vida agora que tenho os dias contados tenho de me despedir de ti de qualquer forma.
Comecei a ver uma ténue luz lá no fundo do tunel, o caminho é difícil apresenta percursos nunca antes percorridos. Tenho de agir. Olhei bem para dentro de mim. Aceito o desafio de viver com esta doença? Que estou a fazer por isso? Que estou disposto a mudar? A quem pedir ajuda?Dias depois levanto-me cedo, dirijo-me ao hospital. Estou nervoso. Preciso recomeçar a viver. A dúvida, a angústia e o desespero dos últimos tempos, fizeram-me cair numa depressão profunda. Já não é possível continuar a viver assim. Preciso ser esclarecido, confrontado, sofrer tudo de uma vez só e respirar fundo. Hoje, preciso de todo o tempo que consumi desde que nasci.
Aguardo pela consulta, pacientemente. De repente, a médica vem ter comigo e pede-me para que a acompanhe. Entro no gabinete, sento-me. Sinto um nó na garganta, algumas lágrimas teimosas, respiro fundo, aliviado. Em poucos segundos dissipam-se as dúvidas, os tempos infindáveis de angústia, a batalha do desespero.
É tempo de arregaçar as mangas e fazer o que tem de ser feito. Amanhã terei a primeira consulta da especialidade, repetirei análises que confirmem o que hoje me foi transmitido, e outras especificas para saber o ponto em que se encontra o efeito devastador do virus. Pode ser que tudo esteja ainda sob controlo do meu próprio organismo. Pode ser também que nem necessite de medicação para já.
Regresso a casa com a certeza de que voltarei amanhã, assim como voltarei muitos e muitos dias durante toda a vida que me restar daqui para a frente. O hospital, a partir de hoje, fará parte da rotina da minha vida, será um local onde me habituarei a ir vezes sem conta, para que possa tratar de mim.
Voltei no dia seguinte e sinto-me reconfortado. A médica que me seguirá é de facto espectacular, além de uma super entendida na àrea do VIH/SIDA. Tive sorte.
Infelizmente o virus fez estragos consideráveis. Tenho de iniciar imediatamente a medicação, por forma a preservar o que resta do meu sistema imunitário. Tenho apenas 258 células de defesa, quando normalmente, uma pessoa não infectada, poderá ter até mil e tal destas preciosas células. 11 mil carga viral. Iniciar a medicação, sem medo dos efeitos secundários é o que irei fazer.
O tempo foi passando. Sinto-me bem. Em apenas cerca de 2 meses consegui o que pode levar anos. Estou indetectável. A medicação reduziu o vírus a quase nada, isto é, ao máximo que é possível reduzi-lo, apesar de não o conseguir exterminar. As células de defesa subiram desde então. Tenho 402 e continuarão a subir ao ritmo do meu organismo. Tive também tempo para arrumar os fantasmas da infecção, pelo menos os mais aterradores. Hoje vivo com maior paz interior e de certa forma mais feliz. Vivo a vida enfocando-me somente no que vale a pena. Passei a tomar três comprimidos por dia, vou fazer próximas análises dentro de 3 meses, seguidas de uma consulta com a minha médica. Interiormente cresci imenso. Quando algo nos transporta ao limite da vida, regressamos maiores e repletos de vontade de viver intensamente.
Viver a infecção pelo HIV representa o maior desafio com que me deparei em toda a minha vida. Não é, nem nunca será certamente, como viver com outra patologia qualquer, por mais grave e debilitante que a mesma seja ou possa vir a ser. Nas patologias em geral, e lembro-me do cancro, por exemplo, as pessoas contam com o apoio da sociedade, dos familiares, dos amigos, dos colegas de trabalho e até da hierarquia profissional. Sujeitam-se a serem classificadas como coitadinhas, como aquelas a quem a sorte não lhes sorriu, a quem a desgraça lhe coube, mas esse facto é pouco relevante pois o amparo que sentem, é o motor de arranque para lutar contra a doença. Todos os dias têm quem lhes pergunte: Então, está melhor? Como é que se sente hoje? Deixe lá, isso há-de passar. Viver a infecção pelo HIV é viver ocultando a existência da infecção, é fazer de conta todos os dias e em todos os momentos de que não estamos infectados, de que essa patologia não existe em nós, de que isso é apenas um problema de alguns, nunca um problema nosso. E aprendemos a repugnar a infecção como se não a tivessemos, para podermos caminhar lado a lado com a sociedade hipócrita que nos rodeia. Aos poucos, conformamos-nos que a infecção é caraterizada apenas por uma relação bilateral entre nós e o virus matreiro e hediondo, não há amparos, não há condescendência, não há parceria, não há afecto de terceiros. Se houvesse alguma coisa, seria apenas a descriminação, o estigma, o preconceito, o apontar do dedo, o repúdio, a censura, o afastamento e a fuga, o que já não seria pouco. E talvez sejamos muito poucos, aqueles que podemos contar com o amparo da familia e com o de alguns amigos. Neste caso, seremos uns afortunados. Eu, tive a sorte de contar com escassos, mas bons amigos. Aqueles a quem confiamos o nosso "segredo" e que sabem da nossa condição, aceitam porque gostam de nós. A ignorância fomenta o medo. O silêncio promove a Morte no mundo exterior, no exercicio da minha profissão, tenho de agir como se não estivesse infectado. E faltam-me os abraços de todos os que me conhecem e que lidam comigo diariamente. A Sida coloca-nos barreiras em todos os aspectos da nossa vida, reduz-nos os objectivos, retira-nos o gosto pela vida, e obriga-nos a reaprender a viver de novo com todas as condicionantes que a mesma nos impôe. E é uma tarefa árdua para executar em silêncio. E se a Sida promove o silêncio, o silêncio deverá promover a saída. E a saída do silêncio passa por vivermos uma vida a um nível mais interior, mais sublime, no fundo mais racional, o que faz efectivamente a diferença nesta passagem pelo planeta Terra. Cumpre-nos construir a partir de agora uma vida mais introspectiva, com mais valor, e crescer por dentro em todos os sentidos e elevar e enriquecer a alma, reduzindo o mundo exterior aquilo que no fundo ele representa, um quotidiano superficial, repleto de senso comum e a vida finalmente fará mais sentido. Nesta sociedade plana, seremos aquilo que nunca fomos, seremos singulares e agradeçamos esta virtude e esta conquista à Sida, por muito estranho que nos possa parecer. Contemos connosco e somente com aqueles, por muito poucos que sejam, que possamos contar.Eu estou aqui, para quem quiser contar comigo, para viver a vida sem silêncio e com saída. Amanhã sera sempre outro dia.

1 comentários:

mié disse...

Olá

Encontrei o seu, teu blog e gostei.
Li o teu post sobre a notícia...a notícia que ninguém quer ouvir. Todos passamos pelo mesmo...

Eu também sou ser+ desde 1995, já lá vão 13 anos.
Eu com mais dois amigos também seropositivos abrimos o blog tempo de janela onde escrevemos sobre as nossas experiências e sobre muitas coisas mais...até de disparates :))

Pensamos que seria bom e importante reunirmos no blogosfera gente como nós, que é também seropositivo, para trocarmos ideias, opiniões e ajudar-mo-nos mutuamente.
Passa por lá

http://sida-dania.blogspot.com

Se nos autorizares a linkarmos o teu blog o que nos honraria, diz.

abraço solidário...não estás sozinho :))